segunda-feira, 9 de abril de 2012


Aquele era um encontro entre os olhos e a superfície do outro. Não poderia ser mais profundo do que isso, porque esse era o limite. Se os olhos pudessem ver por inteiro, se enxergassem o que existe ali de verdade, provavelmente não haveria apaixonamentos. Seria como desmontar histórias antigas, como se os Romeus e suas Julietas nunca tivessem vivido e morrido por encantamento e amor. Seria a imagem de dentro escorrendo por fora, a visão funcionando como uma escavadeira que passeasse por espaços desconhecidos e quase proibidos a nós, que não podemos ver do mesmo modo que fazem as aves de rapina. Então naquele encontro, não. Era como ver uma casca de gente, uma película orgânica, os seres vistos por trás de uma certa cegueira. O outro lado era percebido por um lugar diferente. De olhos para outros, ali sim, por dentro desse espelho transparente, úmido, circular, ali estavam escritas as imensidões de histórias, como informações sobrepostas sem ordem nem escolha. É que era tão fino. É sempre tão fino que atravessa qualquer espaço sem que se perceba, até alcançar aquele lugar invisível.

Se pudessem se ver como realmente eram, talvez não conseguissem se observar por mais do que alguns instantes.
   (para Cálamo)
  

sábado, 31 de março de 2012

    
De dentro do meu umbigo saiu mais uma eu, escorregou diante de mim e circulou como quem já sabia viver.  Olhamos para este ser espelhado que éramos, sabendo da irrealidade desse encontro. A outra eu multiplica-se sempre, ignora a minha existência e mal sabe que é construída por aparentes desimportâncias.
  

domingo, 25 de março de 2012

 
n'algum espaço
Saudade é bicho sem razão. Escapa em pontadas líquidas, fluxo sem hora marcada. Em silêncio tão profundo que grita até estourar os vidros dos quartos, dos carros, da cidade. Embaça o olhar pela força do ar que tem, e é. Paradoxo sanguíneo, essa tua (ir)real presença ausente, que chega de surpresa e engole o tempo que há.
     

quarta-feira, 14 de março de 2012


estalo
Esvazia, vaza pelos buracos, escorre pele poro pelo, pinga pelas alturas, derrete parte-matéria, parte-lembrança, pedaço-história; despenca pelo ar essa ramificação de alguéns, semente broto caule folha filha filho; gera arremate, desfaz razões, ralenta cores; cria tempo verbal inconsciente, ausente ou ?, permanente ou ?, irreversível ou ?; atravessa pela fração incalculável do instante e vai para ser adubo do tempo.
  
       
Por fazer desaguar de novo entre trêmula reação; por encher meus olhos de explosão e receio profundos. Pela urgência, pelo espaço-tempo sem espera sim desejo; no fio fino do que não sei ler, entrego-me equilibrista em primeira e segunda pessoas, por e para ser.
   

domingo, 11 de março de 2012

   
Em torno do que é difícil. Procurando encanto no movimento, e do lado de dentro, e do lado de fora; atitude e inspiração e prazer e verdade. Assim lua inteira, cheia, gritando de cima, casa dela-minha, impulso de música muda suspensa em arco luz. Sonho refletido em energia viva, muita, trocando o ar, respirando asas. Não sem receio. Não sem desvios. Não sem saber. Asas.
   

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

vôo
De onde não havia saída. De onde não há-via os vãos, as passagens. Só espaço incolor a ser preenchido num momento desconhecido - e mesmo assim, se. Era a vertigem do susto, abismo-quase-alucinação, quando o mundo silenciou em círculos esfumaçados. Alguma ânsia não reconhecida e o corpo que corria por dentro, fugitivo imóvel. Olhos vazados em compulsão; apoios falsos em torno do vento. Respirou sem ar. De onde não havia mais, escapou nunca, até dormir em pequenos tremores atônitos à espera vazia de que parasse de girar. 
    

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

 
A pele que encobre o ser, aquele que é. A pele é o ser, também. Desde a chegada. Em vias de mão dupla, transparecem dentros e foras. Toca na pele outra, aquela que continua, estende e divide. Solitária em sua intermitência. Dor e prazer. Explosão. Trilhas sobre os poros, até o fim, até ser pele-pó.
(para Cálamo, 21/02/12)
          
  

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Poesia-vida profunda viaja quilômetros pelo ar. Em instantes reverbera, por pedidos que passam pelas pontas dos pés e sapatilham marcas de histórias construídas.
   

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

   
Era aquela estrada bifurcada no fundo do mapa, invisível e múltipla. Era vela acesa, lágrima pingada, memória de tempo incerto misturado como alquimia bem feita. Palavras explodem de dentro das lâmpadas, datas desenham curvas saídas de envelopes coloridos. Cada minuto insone, lembrança mergulhada dentro e fora. Era água fácil.
     

domingo, 5 de fevereiro de 2012

De branco, para a noite de muitas cores. Eu fui com menos medo daquele escuro. Cheguei mais distante. Algo entre presente e história naquela energia me sugou de volta. Chorei tão forte quanto. Agradeci de novo, diferente e sempre. Voltei sob um céu de luz quase cheia e estrelas que só ali. As palmas ecoam ainda. Eu também.
 

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012



Feliz (ahn???) aniversário para essa cidade atolada de gente e contradições. Atolada de maus cuidados, mais um braço-reflexo de um descaminho maior, mais antigo e mais largo do que ela própria. Transbordante de sons neuróticos, melódicos, disparadores de coração e de velocidades variantes e intermitentes. De onde não vou/vôo assim tão fácil. É 2012 e feliz o que, exatamente? Quem sabe a idade, um dia, traga mais cor, justiça, pele e corpo a ela. A idade e nós, parte-todo da mesma composição.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

      
Nilton Cardin
Pinheirinho é mais um. Arbitrariedade medieval, mais uma limpa, mais uma varreção. Pega essa massa humana, mais uma massa humana, e ainda aquela outra massa humana, como corpos sem gente dentro, sem rosto, sem história, pega a vida, as conquistas e as lutas diárias e de anos inteiros, essa massa desimportante, incômoda, essa sobra, esse povo excessivo, e põe todo mundo em lugar nenhum, em favor da verdadeira bandidagem suja e sanguinária. Passa a metralhadora, o trator, joga gás, espanca, vai de camburão, de helicóptero, invade, mata adulto, mata criança e esconde - ou já nem esconde mais. Vai, Sr. Alckmin e sua corja de assassinos, unam governo e polícia para expor os seus serviços criminosos gentilmente prestados à população. Angústia da gigante inversão.
      

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

   
Aquela com quem conversei no mar de água doce talvez fosse, na verdade, eu. Ou somos nós, eu e ela, dimensões da mesma idéia. Grãos e estrelas desencobertas, minhas palavras tem a forma desse sorriso; deixa ver todo dia de perto, tão mais perto que sorria eu entre ele também.
 

domingo, 8 de janeiro de 2012

 
tudo cabe, do som à estrada,
do sono ao riso,
da vontade ao tumulto,
do susto ao sim,
espelho inusitado, previsto
gosto macio de espanto encontrado
tempos verbais em torno
sinestesias esparramadas
impulso de mergulhar.
   

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Muita chuva pra lavar o tempo. Meus desejos entregues ao mar, e sobre e sob ele. A água de ir e vir levou para guardar no fundo o que não tem que estar, e prepara, naquelas ondas que bateram na pele, os nascimentos. Um agradecimento eterno, aquecido e úmido ao maior presente até então, aquele que chegou no início de um ano relâmpago e de papel cumprido e certeiro, presente/doação, e foi.
Esse que explode, tempo-agora, é meu. Um pouco de fogos mas parecem estrelas.
  

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

 
Que esse que vai vir seja feliz, e de boas surpresas. O como, só sendo. Em água o que for para dissolver; na pele e por dentro dela o que tiver permanências, por quanto for. Eu? Estrada.
   
 
É que aí a vida pede movimento, e vôo, em alguma direção ("ainda que possa ser para dentro" - o complemento não é meu, mas bem emprestado).
Foi movimentação de energia, e isso por si é livre, e leve, e ar;
projeção desviada, mas riso.
Depois é do tempo, em algum lugar.
   

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

 
Esse riso bom ecoando nos sonhos dos meus sonos curtos,
em tons macios, junto aos olhos apertados.
Respiração espalhada
de dentro pra fora e das imagem para dentro
corre numa curiosidade desperta.
Inquieta, acordada, para conhecer o que é, e como,
alguma surpresa escondida por trás de saber desses sons.
Convite mudo lançado à jato.

 

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Eu ali. Eu aqui, estrangeira do espaço-aí a que pertenço, enquanto longe é dia-noite de um momento encantado.
 

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Um contorno de espaço em torno de. Isso é a saudade.
Ponto de transbordamento.
Por tudo ou nada.
Dentro disparava como se fosse sair e inundar, mesmo sem som. Os olhos falam por vozes equilibristas.
 

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

O amor tinha menos nomes do que ação e olhares. E não existia transcender: ou era, ou morria. E tantas rasteiras cegas. Parou no tempo e era hora de responder.
 

sábado, 19 de novembro de 2011

Há um ano cheguei perto dessas energias pela primeira vez. Perto de corpo, olhos, lágrimas, ouvidos, desejos, curiosidades e arrepios presentes. Ainda alterno sobre como meu coração e meu pensamento tocam nisso mas, surpresa e impressionada até hoje, tenho algum vínculo gravado para sempre nesse universo de outros nomes.
 

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

 
O primeiro parto meu-não-meu-fora-dentro-de-mim foi aquele por amor e vontade até que transformou-se em vento daqueles olhinhos das fotografias ficou imaginação porque para certas intensidades há de ser tudo ou nada quando se reconstruíam possibilidades um tiro de canhão à queima-roupa na rua sem saída abateu de susto de incoerência de choque térmico visual auditivo pela expectativa de que era outro o tempo e mal sabia que. Cava-se na fumaça. Dança que, pelo suor, voa.
   

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

 
Olhos panorâmicos prolixos.
Passagens secretas, vazamentos, pontuações imprevisíveis e o tempo estendido ameaçando fissuras.
Onde?
 

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Humpf por dentro; salmoura da cabeça aos pés por fora, por favor. Numa curva daquelas que. É quase como algo desconhecido que agora toca devagar, depois do espaço abismo que derreteu imagens. Eu falei enquanto dormia, mas eram tantos quilômetros surdos que talvez fosse melhor manter o sono mudo e abrir nos sonhos, meus e outros, a voz e os olhos. Há gravações escondidas. Uma saudade sem nome.
   

terça-feira, 11 de outubro de 2011

   
A mãe com a filha de uns 2 anos no carrinho, atravessando o viaduto sobre uma avenida pintada de faróis vermelhos de um lado e brancos do outro, todos parados. "Olha lá embaixo, filha, quantos carros!" E tive vontade de que meus filhos venham a tempo de, ao menos olhando para cima, conseguirem no mínimo ainda ver a lua.
 

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

  
Corpo um pouco calado, um pouco quieto, um tanto amassado. Capuccino, arroz doce e música, pro dia nascer feliz.
  

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

 
Eita, que cheiro é mesmo um troço que tem gosto e memória.
  

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Essa lua de sorriso fino pode ser o espaço que há em comum. Enquanto isso, qualquer fagulha explode.
 

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

 
Noite/madrugada. Eu-clara, estrada ainda escura; encontrar som, movimento, calor e mais algumas interrogações. Vou a fundo no espelho solitário e silencioso, sou o espaço de cá. Redescubro o sentido do medo num recorte de percurso curto, alongado pelo abismo atrás e na frente que traz realidade para a relatividade do tempo. Atravesso. Chuva fina para o barro nos pés; nas batidas ao longe reconheço mais um retorno entre os cantos de nomes lindos que me aproximam. Observo como quem procura algum esboço de certeza, um só que seja, uma afirmação pequena que responda sobre. Dessa vez, o que quase escorre transparente é o não saber - além do som que retorna quando traz consigo quem fez a ponte entre um desejo e sua concretude impressionante. Do espanto, sei que observo os olhos fechados, abertos, entreabertos, as vozes e tudo o que me causa uma diversão desconfortável; brigo com minha própria desconfiança, sorrio amarelo porque discuto com o que enxergo. Os olhos podem dizer de quem está dentro deles? Talvez pudessem antes, mas nem eles são capazes agora. Vidas reais que tem alguma aparência de uma ficção estranhada. Se ver não basta mais, como escolho sentir? Minhas mãos ocupadas de doces, há pedidos, ordens, idiomas, funções e uma lagoa indefinida. Não consigo conjugar em terceira pessoa. Quem fala comigo? Confundo-me entre sensação, pensamento, sugestão, explicação, eloquências, imagens, realização, situações, nomes, conceitos, metáforas, alegorias; destaco-me do planeta e olho de fora essa brincadeira ingênua criada para que façamos disso, e de nós mesmos, algum sentido. Volto e quero entender esses mergulhos profundos. Entre compreender, duvidar e fundir, são inúmeras viagens de ida e volta em espiral. Amanheceu, e minha cabeça e corpo que não dormiram acordam junto com o dia emendado no anterior. Eu-clara, eu-interrogação.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

  
Gerar por/vir, ao longo da travessia de clima vibrante que se alterna para que seja possível. Rascunha-se em mim alguma compreensão ainda irreal. O tempo se aproxima, embora complexo como o que vem por dentro dele. Silêncio. Espaço para ver, tecer e criar. Olhos de lince e água doce. Linhas tatuadas de futuro. O que sai pelos olhos é meu lugar expandido. Pode ser que o amor seja invisível.
   

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

  
Há dois dias: "Quanto tempo vai durar essa oficina?" "Três meses." "Então, daqui a três meses eu vou conseguir sentar no chão, como vocês." Hoje, rolamento adaptado para ela de pé, na parede. Aí: "Depois você me ajuda a subir? Eu quero fazer no chão." E fez, com torção e tudo, tão antes do seu próprio prazo.
  

terça-feira, 6 de setembro de 2011

  
Subi os degraus no ritmo do piano (meio francês?) e isso tinha alguma comicidade que só eu escutava. O tempo corre mais quando não pode. Na quase última parte do caminho, o outro lado do vidro e um banner de copo amarelo espumante. Puxam assunto nessas conversas vindas do desconhecido, e tiro o fone para saber. "Se eu fosse 'da alta', proibia isso. Eles querem viciar o povo. Coisa horrível. Podia ser uma foto de um morango bem bonito, ou um refrigerante geladinho. Mas isso? O médico hoje me disse que eu tenho 52 anos mas não pareço. Claro, eu não fumo, não bebo, e o povo aí só vive na bagunça. Aí ainda tem gente que olha essas fotos e fica querendo beber isso. Chegou meu ponto, vou descer, até mais e um bom dia". Eu: nem dava tempo e nem nada o que responder; em instantes tinha me tornado parte (divertida) da bagunça. Atraso calculado e foco no novo começo. O retorno parece não ter previsão - enquanto isso, registro.
  

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

   
No dia da fotografia desbotada, era um corpo-casca prestes a rachar. Então atravessa portas para escapar de dentro de si e encontra peças que se encaixam sem regras, multiplicam-se ainda ao longe e atravessam quentes pelas artérias. Hoje é dia de força e cura; cores que ofuscam em sorrisos brilhantes pelo caminho intermitente. As águas lavam à sua medida enquanto me viro ao contrário e quero tão profundamente quanto duvidosamente inverter as doações que nada pedem em troca, exceto aquelas desejadas para sempre. Desinteressou-me esse não camuflado, ouvido espalhado. Do melhor e do pior de mim constitui minha matéria de ser, tão óbvia quanto ainda em trabalho de parto. O corpo-alma que tanto foi suporte, e meio, pede para enxergar e receber vontades. Gosto esfomeado, forte e ácido-adocicado, esfumaçado às vezes, vermelho-vinho, querendo espaço, querendo espaço, querendo espaço e cria. Ninar(nos) em disparos de vida. Isso é o tempo.
      

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

  
Não cabendo. Aqui e nas pontuações reticentes. E vendo a criança tão menor, tão desenho do passado, busquei nos olhos dela um presente um pouco perdido. Tive ímpeto de colocar no colo aquela menina de pernas menores do que a meia, de abraçá-la e reencontrá-la nos meus espaços vazios - vontade espelhada. Procuro no tempo esboços do futuro.
  

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

   
Fecho a porta, a janela, vedação no rodapé. Apago as luzes. Desligo gás, aparelho de som, computador e todas as tomadas. Viro de costas. Abro os olhos, o espaço atrás de mim se dissolve e escoa. Do outro lado, esboçam-se traços tridimensionais. Portas, janelas, rodapés, gás, som, computador, tomadas, rabiscos de outras cores, outros tamanhos, difusos. Convidam-me.Vou.
       

sábado, 13 de agosto de 2011

  
Presentes. Dança e(m) encontros - elos para todos os movimentos. Hoje meu pensamento dividiu-se em dois universos tão distintos quanto próximos; rastros de histórias construídas em conjunto. Obrigada ao Danceato pelo acolhimento, por me sentir tão dentro mesmo fora, pela poesia, lembrança revivida no corpo. Obrigada à Sul 1 e a todos os vocacionados - experiências e trajetos de desdobramentos e encantamentos. E às primeiras noites de aprendizado BR/FR, fonte inesgotável de prazer. Que seja assim: mais!
  

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

                  
No primeiro ato desse agosto, chavões que tomam conta de um coração na boca. Eu por dentro respondendo inteira ao que é mais do que aparência. O número imenso de tempo que se anunciava encerra a contagem regressiva e agora, no limiar da proximidade, prevejo a realidade cheia de medo e felicidade. No segundo ato a imagem que se aproxima me brilha por dentro. Durante os passos incontáveis, eu-uma-inteira-acelero, atenta para as palavras que podia ouvir. São os olhos cabelos boca mãos sorrisos, e aquele espaço minúsculo entre os dentes onde quero me instalar por instantes que não terminem. Pisco só para mim, acreditando. No terceiro ato, explosão plena e toda falta de palavras. No quarto ato quero lembrar Saramago, "se não disseres nada compreenderei melhor, há ocasiões em que as palavras não servem de nada". Pergunto imersa em interpretações e desejos.
      

terça-feira, 9 de agosto de 2011

   
O sentido do movimento apontando para poesia e prazer. Respiro no meio de tanta necessidade de deslocamentos. A dança devolve-me a mim.

    

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

  
Das matérias que me compõem, são desconhecidas quase todas. Nas visíveis reconheço partes terrenas, partes de café, de amor, de pensamentos, de madrugada. Partes de ansiedade, doses de mentiras brandas, preguiças e forças trocando de lugar, palavras buscando dar conta de dividir o que é tão difuso quanto pontual. Uma pressa intrínseca, urgência de. Precisava ter braços de abraçar o mundo todo, e um tempo estendido para além do real. Trilhas sonoras intermináveis que contam reticências e exclamações, todos os cheiros que conduzem pelos tempos em espiral. O corpo em reecontro. Desagues de acasos, esperas, realidades e virtualidades e realidades. Olho o relógio e, nesse instante, minha cabeça no ar.
   

terça-feira, 26 de julho de 2011


  
Um senhor balança o corpo sozinho, no meio da calçada. Lenine no meu fone de ouvido. Desacelero o passo para encaixar a dança dele na música que só toca para mim. Ambos absolutamente no mesmo pulso. Pequena cena urbana de curtíssima duração.
  
   
que reação é essa que descontrola no corpo a voz vinda daquela distância; o relógio acelera a contagem regressiva - proximidades; imprimo expressões pela tela desfocada; guardo por dentro o que não tem outro registro; observo, peço, mergulho, espero; tremor ingênuo; tropeço no tempo que rompe o espaço silencioso; envolvo e fecho os olhos para dormir e poder acordar.
  

segunda-feira, 18 de julho de 2011


  
Ônibus pela cidade, e parece que tenho contato com todas as crianças do mundo. Criança observando é das imagens mais bonitas de ver. Percurso, a lua ali, do lado de cima, brilhou mais, em círculos sentidos de olhos fechados. Depois a lua inverteu de cor. Turbulências do olhar para dentro, respiração. Sonoridades, uma bagunça boa de idéias. Volto ao movimento. Surpreender-se, às vezes. Escapam palavras.
  

segunda-feira, 11 de julho de 2011

 
E se for mais perto do que parece, se forem reconstruídas as imagens apagadas pela fumaça desse tempo difuso, e se houver significado nos sonhos parecidos em lugares distintos, se for assim porque foram sonhados na mesma noite, e se eu me assustar com isso a ponto de perceber, e se me confundir em meus próprios desejos, se as palavras saírem assim sem som para rebater em paredes de concreto, se minhas peles e ares voltarem a responder pelo movimento e essa minha fome for saudável, e se dissolver de/em mim esse corpo estranho, se for por impulso, e as músicas carregarem histórias, e os cheiros me preencherem como nunca, e como sempre.
   

quinta-feira, 7 de julho de 2011

      
E aí as estradas não terminam nunca. Passagens, paisagens, imagens; São Paulo torna-se cidade de imensidão sem medida, tantas travessas curvas climas quase simultâneos, continuamente irregulares. Vento nublado que muda de cor se é (qual) dia ou noite, e onde. Os retornos de longe vêm contraditórios e minhas divisões internas escolhem, ou não, como responder, ou não. Não reconheço o caminho recusado, nessa visão ainda desencontrada das vontades. Elaboro a intenção com informalidade repentina; acho que quero descobrir poesia na dança e isso vai ter um monte de mim lá dentro. Brilho perfumado acelerando algo por(vir), mesmo que diverso. Frio e vinho se (me) atraem. Ir ou ficar, plurais, fusões.
   

domingo, 26 de junho de 2011

  
Que imagens passam por dentro dos olhos que parecem ver mais fundo? Eu, no mais branco do que antes. Estrada, banho, bacia, saudação e cheiro, apreensão. Panos saias cabelos, uma forma que parece não me caber mas está aqui, eu tão fora do ninho quanto dentro dele. Bicadas de costas de álcools vários, fumaças, mais trocar do que absorver. Volta em mim a timidez da menina que está ainda guardada tão perto de hoje, algum receio incompreendido. São sons gigantes, danças e danças e brasa que se apaga na palma da mão, seguida do gesto-presente que abre fendas para os olhos molharem buscando leituras. Festa, festa, ouço algo sobre semente, sobre início, sobre começo. Sou levada aos pés da energia-gente-homem, é noite/dia de encontrar quem !!, realização imensurável. Assumidamente em muitas lágrimas - ainda - porque o inesperado, quando concreto, é ao mesmo tempo o que há de mais próximo e mais distante em mim. Meus pés e palmas aos poucos soando também. Eu não sei responder, ainda olho. Neblina e risco, sono coletivo que passa uma rasteira nas horas curtas. Amanhece onde me parece ser um universo suspenso. O retorno é quase meio do outro dia. À minha irmã-anja, obrigada por abrir caminhos, mesmo que eu não saiba bem onde me encontro entre tantos olhares.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

               
aos nomes, amores convidados, presentes de um jeito ou de outro,
de segunda a quinta feira, e do bolo pro jazz pra padoca 24 horas,
e os tantos carinhos conversados lá ou aqui ou ali... VALEU!!!!!!!
    

quarta-feira, 15 de junho de 2011

         
hoje tento dar nome para os processos criativos que talvez eu não saiba mesmo como se chamam ou como defino, sinto o tempo correndo mais e menos do que deveria, espero contagens regressivas e suponho as progressivas, sinto saudades contrastantes, procuro de que forma o movimento tem espaço dentro e fora de mim, escolho entre tentar ir ou arriscar ficar, sonhei coisas inesperadas e ausentes, não entendo muitas ações que talvez não digam mesmo respeito a mim, desejo saltar no desconhecido, conceber espaços e vidas, preciso cuidar do que pode não ser grave nem urgente mas tem que ser curado, hoje estou assim no meio da floresta de espelhos, faz frio em São Paulo e há músicas e encontros que podem esquentar de dentro pra fora.